Vamos ser velhos ao sol nos
degraus
da casa; abrir a porta empenada
de
tantos invernos e ver o frio
soçobrar
no carvão das ruas; espreitar a
horta
que o vizinho anda a tricotar e o
vento
lhe desmancha de pirraça; deixar
a
chaleira negra em redor do fogão
para
um chá que nunca sabemos quando
será – porque a vida dos velhos é
curta,
mas imensa; dizer as mesmas
coisas
muitas vezes – por sermos velhos
e por
serem verdade. Eu não quero ser
velha
sozinha, mesmo ao sol, nem quero
que
sejas velho com mais ninguém.
Vamos
ser velhos juntos nos degraus da
casa –
se a chaleira apitar, sossega,
vou lá eu; não
atravesses a rua por uma sombra
amiga,
trago-te o chá e um chapéu quando
voltar.
Maria do Rosário Pedreira
Para o meu eterno
namorado






